Para falar da história da Casa de Eurípedes é necessário falar de seus amigos e amigas. Era o ano de 1983, eu aguardava uma solução para o almoço daquele dia. O Hospital contava, àquela época, com cerca de 25 pacientes internas, todas do sexo feminino, em suas antigas e limitadas instalações situadas, na Rua 44 do Setor Norte Ferroviário, em Goiânia. Todos os recursos para suprir as necessidades materiais provinham de doações e promoções realizadas pela Diretoria e colaboradores.

Naquela manhã, nossa despensa estava vazia, nenhum gênero alimentício. Nada para preparar o almoço. Nossa fonte de fornecimento de alimentos

quase que se resumia nas visitas semanais à CEASA, em que os membros da diretoria se revezavam, pedindo aos comerciantes doações de verduras e frutas. Nosso meio de transporte, um automóvel Ford Belina ano 1974, voltava sempre abarrotado de alimentos, que depois  selecionávamos, dispensando os produtos deteriorados. As doações sempre eram suficientes. Nunca faltavam pessoas de boa vontade para nos ajudar. Os cereais, arroz e feijão e outros, conseguíamos principalmente em campanhas junto aos produtores rurais, através de amigos e voluntários que saíam pela zona rural no período de colheita, solicitando doações, que estocávamos nas dependências do Hospital.

Mas, naquela manhã, nossas provisões estavam esgotadas. Nada que pudesse ser utilizado para fazer o almoço de nossas irmãs internadas. Uma preocupação estava nos atormentando. O QUE FAZER? A incerteza transformou -se num sentimento de súplica aos Céus; o nosso compromisso, o nosso dever, estava completo no que tocava às possibilidades do mundo material, restava o compromisso de acreditar que forças superiores regiam nossos destinos. Então fizemos UMA PRECE.

Após uma hora, aproximadamente, alguém bate à porta do Hospital. Fui pessoalmente atender. Uma emoção profunda invadiu-me a alma, quando me deparei de frente com o Sr. JOÃO MARTINS DE CASTRO, fiel colaborador da Casa, dono de um pequeno comércio de gêneros alimentícios, situado em rua contígua ao Hospital. Com um sorriso e um sentimento de amor, ele trazia uma sacola nas mãos com farta doação de verduras em muito bom estado. Aquele momento nunca saiu de minha memória.

Ainda o vejo em minha frente de braços erguidos, de coração aberto, feliz em sua simplicidade e bondade. Perguntei a mim mesmo: Como ele soube de nossas necessidades naquele momento? Que providência o trouxe naquele dia à nossa porta? Lembrei de Paulo, o apóstolo dos gentios, em Coríntios, Xlll,v.13: ´Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.’ Pensei na caridade ensinada pelo Cristo, a supremacia do amor, que é capaz de superar quaisquer dificuldades que possam transpor nosso caminho.

Agora posso refletir que, ao longo do tempo, muitos amigos têm batido à nossa porta, escrevendo com letras indeléveis a história desta Casa, a história de seus amigos, amigos como o saudoso Sr. João Martins de Castro, hoje distante física e dimensionalmente, mas cuja presença ainda se faz sentir entre nós. O amor permanece, sempre!

Compreendo que muitos amigos, a maioria anônimos, têm trazido suas sacolas, não importando o tamanho ou o conteúdo. Seja o voluntário ou o colaborador funcionário que se dedica com amor  às suas tarefas dentro da Casa, seja o parceiro contribuinte fazendo sua parte no equilíbrio financeiro da Instituição, seja o empresário ou o profissional que oferece recursos e serviços suprindo nossas necessidades, seja o agente político sincero e sensível que canaliza recursos financeiros públicos para a concretização de nossos objetivos sociais.

São os Amigos e Amigas da Casa de Eurípedes, aqueles que chegam e passam, gravando na história desta Casa parcerias de amor. Obrigado Sr. João Martins de Castro. Obrigado todos os amigos e amigas da Casa de Eurípedes. Muito Obrigado!

(Hospital Espírita Eurípedes Barsnulfo / Casa de Eurípedes – Goiânia(GO) –  set/out de 2006)

Jeziel da Silva Ramos

Médico Psiquiatra e Presidente da Casa de EurípedesNeto do Zequinha Sapateiro e da Vovó Dagmar de Araxá-MG

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